• Manu Mayrink

Entrevista com Aline Deluna, estrela de "Josephine Baker - A Vênus Negra"


Você aí conhece Josephine Baker? A estrela franco-americana é de absoluta importância na luta negra e feminina, com um jeito irreverente que causava polêmicas por onde passava. Nascida em 1905, a dançarina, cantora, atriz, humorista e até espiã viveu um período de forte discriminação racial (e ela ainda teve o "azar" de nascer mulher) e se tornou uma das maiores artistas de seu tempo. Mas é incrível como ela é pouco conhecida no Brasil! Eu mesma não sabia nada sobre ela.

Assim cheguei ao espetáculo "Josephine Baker - A Vênus Negra", pronta para conhecer esta mulher, aqui interpretada pela incrível Aline Deluna. A atriz começa como ela mesma e vai se transformando na nossa frente. Quando a gente percebe, já está totalmente inserido na história de Josephine, num misto de risada, reflexão, lágrimas e muita música!

Confira abaixo a entrevista que fiz com Aline que, além de estar no papel principal do espetáculo (ela tem a companhia de três brilhantes músicos que se revezam em outros tantos personagens), é a idealizadora do projeto que coleciona indicações a prêmios (Cesgranrio, Botequim Cultural e Shell):

Apesar de toda a importância de Josephine no campo musical, na luta dos negros e das mulheres, ela não é tão conhecida do grande público. Eu mesma não sabia nada sobre ela até o espetáculo (e me senti péssima por isso depois). Como tem sido a repercussão do público após as sessões? Como você se sente contando esta história?

Eu também desconhecia a história dela, assim como a maioria das pessoas da nossa geração e especialmente no Brasil. Meu primeiro contato com ela foi como referência para um trabalho e a partir daí pude buscar sua biografia. É uma vida rica do ponto de vista artístico e pessoal, e que precisa ser conhecida! As reações do público são sempre de surpresa ao conhecer essa história e de encantamento com essa personagem singular. Para mim é uma honra imensa poder resgatar essa parte da história, pois estamos falando de uma mulher militante, a única a discursar na marcha de 63 ao lado de Martin Luther King, e pioneira em diversos campos, como a luta contra o racismo, e provocando uma revolução nas artes com suas performances fora dos padrões, sendo ainda a primeira protagonista negra do cinema.

Neste espetáculo, você conta a história de Josephine sendo também um pouco Aline, né? Vocês duas se misturam, se transformando em uma só. Isso ajuda na hora da atuação, ajuda a se aproximar da personagem? Tem medo de o público confundir quem é quem ou isso faz parte do que vocês pretendem mesmo?

Tem sido uma experiencia extremamente enriquecedora, principalmente o processo de construção da peça, pois para o ator são raros os momentos em que você se coloca em cena sem a "máscara" da personagem. Nossa história se mistura em momentos e foi esse um dos motivos que levou a querer encenar esse espetáculo, onde a linguagem principal é esse tom de conversa informal que permite que a platéia se aproxime e em momentos se identifique com a personagem. As questões atravessadas pela personagem e por mim, atriz, são questões universais que falam sobre aceitação, padrões, preconceitos, sonhos, relações amorosas, etc, então não me incomoda que o público se confunda sobre a quem pertencem os fatos descritos, pois na verdade falam de todos nos seres humanos.

Josephine precisou ir para a França para se sentir em casa e ter seu talento efetivamente reconhecido, principalmente por conta da cor de sua pele. Ela foi responsável por muitas mudanças nos EUA quando voltou. Qual a importância de trazer a luz a história de Josephine no Brasil de hoje?

Principalmente nos dias de hoje, onde a história se coloca mais uma vez em um momento de resgate de valores morais suscitando a censura e definições de certo e errado, é de extrema importância resgatar uma personalidade que atravessou a vida "nadando contra a corrente" e que, apesar das dificuldades enfrentadas, conseguiu realizar a sua utopia. É uma referencia para mulheres em geral, mulheres negras, sonhadoras, artistas, militantes, etc, e precisamos de referências assim, que mostrem que não só é possível, como já foi feito.

O espetáculo traz canções de época, mas também mais modernas, como “Som de Preto” e “Like a Prayer”. Por que optar por essa mistura de gerações?

Exatamente para misturar as gerações, pois as questões vividas e defendidas por ela há um século hoje em dia ainda são as mesmas. Ela optou pela mistura de raça, de cultura.. Ela mesma foi uma americana naturalizada francesa. A mistura enriquece, amplia o olhar, e mostra como através de diversas linguagens podemos falar da mesma coisa. "Som de Preto" é incluída na peça no bloco de canções brasileira da época, gravadas por ela, que eram apresentadas em cassinos e em eventos da alta sociedade. No entanto essas canções eram compostas por pessoas de classes populares. No caso de "Like a Prayer", essa canção da Madonna foi extremante criticada por falar de temas religiosos, misturar sexualidade etc, e essas críticas atuais são muito próximas dos ataques da igreja ortodoxa à própria Josephine. Enfim, é tudo misturado mesmo.

E como é transitar do humor para o drama tantas vezes em um mesmo espetáculo?

Difícil no começo, mas maravilhoso e enriquecedor como processo. Independente de tratar-se de drama ou comédia, na atuação deve haver verdade, e havendo isso e fácil transitar, pois tudo que é dito, é dito com verdade e o público consegue sentir e acompanhar as mudancas.

Como foi trabalhar com Walter Daguerre e Otávio Muller? Como foi seu primeiro contato com eles?

Eles são gênios! Ambos tem um olhar humano e criativo para cena, pensam rápido, partem para a ação e experimentação a todo o tempo, possuem uma carga de experiência imensa e enriquecedora e estão abertos ao diálogo e à troca a todo momento. Todo o processo foi construído em coletividade e, desde a criação até hoje, todo os momentos juntos são de prazer e diversão. Quando se faz o que se ama é assim.

Serviço

Onde: Teatro Maison de France – Av. Presidente Antônio Carlos, 58 – Centro

Quando: Quinta a domingo, até 17.12, às 19h30

Quanto: R$ 50,00 (meia, R$ 25,00)

Fotos: Lu Valiatti/Divulgação

#teatro

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Manu Mayrink é fanática por livros, filmes, séries, música e lugares novos.  A internet é seu maior vício (ao lado de banana e chocolate, claro) e o "Alguém Viu Meus Óculos?" é seu xodó. Ela ama falar (muito) e contar pra todo mundo o que anda fazendo (taurina com ascendente em gêmeos, imagine a confusão!). Já morou em cidade pequena e em cidade grande, já conheceu gente muito famosa e outras não tanto assim (mas sempre com boas histórias). Já passou por alguns lugares incríveis, mas quando o dinheiro aperta ela viaja mesmo é na própria cabeça. Às vezes mais do que deveria, aliás.

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