• Manu Mayrink

#JáLi - "O Perfume das Tulipas", de Maura Palumbo


Entrevistamos Maura Palumbo, a autora de "O Perfume das Tulipas", o livro da semana no canal do "Alguém Viu Meus Óculos?" no YouTube!

Seu interesse pela Segunda Guerra Mundial e pelo nazismo começou quando você tinha 14 anos, ao ler o “O Diário de Anne Frank”. Quais as suas recordações desta leitura? O que você sentiu ao conhecer esta obra?

Quando li O Diário de Anne Frank, eu tinha a mesma idade da protagonista. A identificação foi imediata e o transporte para aquela situação foi inevitável. Eu me envolvi profundamente com a adolescente Anne que tinha os mesmos desejos e conflitos que eu. A angústia e a esperança em retomar a vida fora do esconderijo, passou ser um desafio para nós duas. Eu vibrava com possíveis planos quando a guera terminasse e ao mesmo tempo me decepcionava com a falta de futuro. Comecei a reparar no que realmente era importante e quanto reclamava sem motivo... Quando ia para a escola ou para casa de amiga ou ao um cinema, lembrava de Anne e na suas privações. O desfecho foi devastador para mim. Anne e eu precisávamos de um final feliz.

Antes de lançar “O Perfume das Tulipas”, você pesquisou o tema profundamente por muitos anos. Como foi este tempo de pesquisa? Como foi lidar com um tema tão árduo e pesado?

O tempo de pesquisa é fundamental para criar uma história. É o tempo enriquecedor e produtivo que nunca termina. A pesquisa , a investigação e as descobertas são eternas. Cada personagem desse combate sangrento tem uma poderosa história para narrar, independente do lado a que pertenceu. A guerra deixou um legado do mal super poderoso e ao mesmo tempo revelou pessoas determinadas a combatê-lo, verdadeiros heróis silenciosos ou não. Eu sou uma devoradora de qualquer matéria relacionada ao assunto: livros, filmes, documentários.

Lidar com o tema é trazer a nossa realidade a triste face obscura da degradação e da desumanização causada pelo nazismo. Se o nazismo teve um "fim" com o término da Segunda Guerra, sua ideologia insiste em nossos dias nos grupos extremistas. Isso é assustador. Precisamos falar sobre isso, por mais árduo e pesado que seja.

Uma das minhas sensações ao ler seu primeiro livro é de que pensamentos muito semelhantes aos daquela época parecem estar se repetindo hoje em dia, mesmo que em menor grau. O discurso de intolerância do início do Partido Nacional Socialista, responsável pelo nazismo, se assemelha a muitos discursos de ódio que temos escutado nos dias de hoje. Como é isso para você? E qual a importância do seu livro nos dias atuais?

Acredito que já tenha respondido parcialmente, na questão acima, mas posso acrescentar que o nazismo é a semente de tudo que estamos assistindo hoje. Toda a brutalidade e a violência foram "turbinadas" nesse período vergonhoso da História e persiste até agora. O que existia em relação à tortura e submissão foi aprimorado. A concepção de uma política baseada no ódio resultou em um extermínio em larga escala. Valores passaram a ser banalizados e a fidelidade de uma nação por um regime radical desprovido de justiça e impunidade foi aderido sem questionamentos. O mais perturbador é reconhecer que a maior crise da época não era a econômica-financeira, era a moral. Todas essas características do nazismo são perfeitamente identificadas nos dias atuais com a adesão e atuação crescentes de grupos radicais e seus métodos implacáveis de dominação e destruição.

Acredito que a principal importância de meus livros é criar um sinal de alerta sobre o risco e o grave perigo que corremos com a omissão e com a aceitação cega.

Você usa muitos termos em alemão na obra. Qual seu contato com a língua?

Os termos são necessários para que a história se torne mais real possível. Não há como retratar o movimento político do nazismo sem mencionar palavras que identificam a origem e a evolução do regime. Existem termos próprios criados para "legitimar" a sua existência (führer, "Heil Hitler", lebensraum...). Muitas palavras também foram usadas no idioma alemão para explicar tradição e costumes, designar nomes próprios de pessoas e locais, produtos... Meu contato com a língua vem de pesquisas (livros e sites) e de pessoas próximas que têm conhecimento do idioma.

Em “O Perfume das Tulipas”, são estas flores as responsáveis pelo sentimento de volta pra casa, quando tudo parece perdido, por diversas vezes no livro. Por que a escolha por essa flor?

No livro as tulipas têm o poder de encantamento e transformação, justamente porque representam os nossos verdadeiros conflitos e encontros. O fantástico é saber que a tulipa não tem aroma e que este é o desafio dos personagens e até dos leitores: descobrir em qual momento este perfume se revelará. A tulipa se encaixou perfeitamente com a história, não só pela mensagem poética, mas pelo cultivo da flor, pelo pai holandês da protagonista, que insistia na sua previsão: "um dia todos sentirão o perfume das tulipas".

Seu segundo livro “Auschwitz, prisioneiro/sobrevivente 186650” traz a história de Francisco Balkanyi, um sobrevivente do maior campo de concentração existente. Como você conheceu o Francisco? E como foi este período de convivência?

Sr. Balkanyi divulgou na mídia em 27 de janeiro de 2017 (Dia da Memória das Vítimas do Holocausto), a necessidade de relatar sua trajetória em Auschwitz e, para isso estava disposto a selecionar um escritor(a) para realizar esse projeto. Eu me candidatei e felizmente fui escolhida. Ler ou assistir a filmes faz parte constante da minha vida . Dedico-me totalmente ao tema, mas conviver com o Sr. Balkanyi não se traduz em palavras. Não há definição. Ele é o elo que me liga diretamente a tudo que conheci pelas minhas constantes pesquisas. Diante de mim uma testemunha de todo aquele horror, de toda aquela tragédia humana. Posso garantir que passei por um processo de transformação. Fui especialmente inserida na História como responsável em traduzir dor, superação, fraqueza, esperança, indignação, revolta e reinvenção. Costumo dizer que meu querido Sr. Balkanyi, não se permitiu renascer com "sobras de vida", ele venceu pela sua sobrevivência !

Quais são suas referências literárias? Além de obras com temáticas da Segunda Guerra, o que mais você gosta de ler?

Minhas principais referências são biógrafos e historiadores : Peter Longerich, Ian Kershaw, Keith Lowe, Laurence Rees, Robert Gerwarth e muitos outros. Não posso deixar de registar minha admiração pelo nosso Machado de Assis. Posso dizer que além do tema Segunda Guerra gosto de conhecer e aprecio outros gêneros literários, como: biografias, romances em geral, principalmente épicos, histórias de suspense e policial me fascinam, além de contos e crônicas.

Seu próximo livro será “Entre os Canteiros”, uma continuação de “O Perfume das Tulipas”, certo? O que você abordará nele?

"Entre os Canteiros" narra o difícil ou melhor, o impossível, período pós guerra. É a continuação do "O Perfume das Tulipas" e retratará a história dos sobreviventes e das sequelas dolorosas da Segunda Guerra. A dura luta pelo renascimento e pela reconstrução dentro do caos. A constatação das perdas humanas e morais; dos sentimentos perturbadores de vingança e da inexistência da ordem e da justiça. O livro conta a persistente e heroica trajetória daqueles que resgataram forças para viver. Assim como no "O Perfume das Tulipas", o "Entre os Canteiros" contará com personagens fictícios vivendo momentos históricos com personalidades reais. A trama é bastante envolvente e impactante.

#livros

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Manu Mayrink é fanática por livros, filmes, séries, música e lugares novos.  A internet é seu maior vício (ao lado de banana e chocolate, claro) e o "Alguém Viu Meus Óculos?" é seu xodó. Ela ama falar (muito) e contar pra todo mundo o que anda fazendo (taurina com ascendente em gêmeos, imagine a confusão!). Já morou em cidade pequena e em cidade grande, já conheceu gente muito famosa e outras não tanto assim (mas sempre com boas histórias). Já passou por alguns lugares incríveis, mas quando o dinheiro aperta ela viaja mesmo é na própria cabeça. Às vezes mais do que deveria, aliás.

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