• Clara Mayrink

"Lou" e a história desta mulher revolucionária


Estamos acostumados a ouvir e conhecer a história do mundo pela visão dos homens. Por muitos anos não questionamos o papel das mulheres em todo o processo de desenvolvimento do mundo. Onde estavam as mulheres quando Colombo chegou à América, quando Lutero iniciou o movimento reformista, quando Dante escreveu “A Divina Comédia”? Será que não eram capazes de ser boas em quaisquer destes aspectos tanto quanto ou ainda mais que estes homens? Nos últimos anos, essa discussão tem voltado à tona mais uma vez. Eu mesma, que quando mais jovem não tive contato com o feminismo, tenho pensado nestas questões com mais frequência ultimamente.

Contei toda essa historinha para chegar na estreia da semana nos cinemas. É o alemão “Lou”, que conta a história de Lou Andreas-Salomé, uma escritora e psicanalista revolucionária, que não é tão falada e estudada. Nascida em 1861 em São Petersburgo, Lou foi uma importante psicanalista e aqui a chamo de revolucionária pelo quanto que esta mulher teve que lutar e desconstruir para ter coisas básicas, como principalmente, o direito de estudar, que era o que mais gostava. Teve que lidar com o preconceito e a insistência da mãe de que ela não devia fazê-lo e até se escondia no confessionário da igreja para estudar. Tanta dedicação rendeu importantes estudos, principalmente sobre a sexualidade feminina.

A mãe ainda também martelava em sua cabeça de que deveria se casar e ser como as moças de sua época, mas não era o que Lou tinha em mente para a sua vida. Ela queria ser livre e acreditava que o casamento a impediria. Por isso, acredito que Lou possa ser considerada também uma feminista de sua época. Além disso, ela também se apoderou do seu prazer e se relacionou com vários homens, coisa que até hoje as mulheres têm dificuldade em fazer, por conta da sociedade ainda machista que vivemos.

Lou teve ainda uma questão com a maternidade. Quando engravidou, passou por um processo complicado por que não desejava ser mãe, mas depois acaba aceitando a filha e morando com ela na velhice. Nesta fase da vida, Lou ainda foi estigmatizada e perseguida por Hitler, por quem teve suas obras confiscadas. Sua vida fora dos padrões e a quebra constante de regras escandalizou a sociedade alemã do final do século XIX / início do XX.

Para completar, um fato que talvez tenha tomado no longa uma importância maior do que a que eu daria, já que Lou por si própria renderia um ótimo filme: ela ainda foi aluna de Freud e teve um envolvimento com Nietzsche (no caso mais da parte dele, já que foi ele que se apaixonou). Outros filósofos de sua época também se seduziram de alguma forma pelas atitudes e pela mente livre e brilhante de Lou, como Paul Rée e Rainer Maria Rilke, único por quem ela se apaixonou. Essas informações são importantes e essenciais para compreender esta mulher, mas talvez tenham tomado muita atenção na trama.

O filme conta com cenários interessantíssimos. É um pouco arrastado, mas não cansativo. É contado na forma de flashbacks: começa com Lou já idosa, escrevendo memórias de sua vida e aí então as cenas são passadas. “Lou”, primeiro filme da diretora Cordula Kablitz-Post, estreia no próximo dia 11 de janeiro e tem classificação indicativa de 12 anos.


#Filmeseséries

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Manu Mayrink é fanática por livros, filmes, séries, música e lugares novos.  A internet é seu maior vício (ao lado de banana e chocolate, claro) e o "Alguém Viu Meus Óculos?" é seu xodó. Ela ama falar (muito) e contar pra todo mundo o que anda fazendo (taurina com ascendente em gêmeos, imagine a confusão!). Já morou em cidade pequena e em cidade grande, já conheceu gente muito famosa e outras não tanto assim (mas sempre com boas histórias). Já passou por alguns lugares incríveis, mas quando o dinheiro aperta ela viaja mesmo é na própria cabeça. Às vezes mais do que deveria, aliás.

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