• Clara Mayrink

Documentário “O Processo” retrata o golpe sofrido por Dilma Rousseff em 2016


Antes de mais nada, eu preciso dizer que eu não me pretendo imparcial com essa resenha. Assim como a diretora Maria Augusta Ramos não se pretendia na concepção deste documentário. Eu tive a sorte de que os fatos documentados se parecem bastante com tudo que eu acredito, então, para mim, não foi difícil gostar deste filme.

Ainda assim, "O Processo" é um filme pesado, que muitas vezes fez com que eu me sentisse até fisicamente mal ao relembrar todo o pavor que foram aqueles meses do movimento do impeachment de Dilma Rousseff. Talvez por estar tão envolta naquilo, até mesmo esperançosa e sem saber o que estava por vir, eu não senti mal-estar físico naquele momento. Eu só precisava saber do instante e do passo imediatamente seguinte. Mas hoje, vendo o panorama maior e os rumos que isso tudo levou, me entristeceu profundamente relembrar este momento da história do Brasil.

“O Processo” retrata algumas sessões do Senado e os bastidores de reuniões da base de Dilma durante o duro processo de impeachment sofrido em 2016. No filme vemos cenas da fatídica votação na Câmara dos Deputados e das comissões e sessões no Senado que levaram ao desfecho final (e todos os desdobramentos que vieram a seguir). Vemos também cenas de bastidores de estratégias dos senadores da base de Dilma. Mesmo sabendo que já era um jogo de cartas marcadas, os parlamentares tinham que manter a postura e seguir na luta, fazer política, como uma forma de não assinar embaixo do que estava posto. Eu particularmente admiro muito a coragem e a paciência destas pessoas que se prestam a manter a luta perante uma situação tão catastrófica.

Os bastidores das reuniões das equipes dos advogados também são mostradas no filme. Evidente que só temos acesso a uma parte do que se permitiu ser filmado. Por mais que eu acredite em determinada pauta, entendo que os recursos documentais de um filme podem ser questionados e isso pode vir a interferir no entendimento da questão. Por outro lado, trata-se de uma pauta que ainda está sendo muito discutida até hoje e que estamos todos refletindo sobre. Vale o posicionamento e o não-esquecimento. Ainda assim, é muito interessante observar a estratégia sendo formada na reunião e depois sendo posta em prática nas comissões.

Infelizmente, preciso dizer que sinto certa vergonha alheia da participação da advogada Janaína Paschoal nesse processo. Ela é protagonista de cenas muito risíveis do documentário. Até poderia ser engraçado, não fossem os trágicos rumos que essa história toda tomou.

São mostrados também alguns bastidores de corredor, como as pessoas dando entrevistas por telefone, tomando achocolatado enquanto usam o computador ou se alongando antes dos pronunciamentos. Gleisi Hoffmann e Janaína Paschoal são as mais flagradas nestes momentos. É um recurso de documentário que eu ainda não tenho certeza se gosto, uma vez que as pessoas agem como se não estivessem de frente para a câmera e isso não soa nada natural.

Algumas cenas das manifestações de rua pró e contra o impeachment nos arredores do Palácio do Planalto também são mostradas no filme. Lembramos ainda da importante conversa de Sérgio Machado e Romero Jucá, em que eles falam sobre “estancar a sangria” que nós aparentemente já esquecemos (o primeiro vive em “prisão domiciliar” e o segundo segue exercendo seu mandato no Senado). As possíveis prisões de Cláudia Cruz e Lula já eram citadas à época das gravações, mas a primeira não foi presa até hoje. Ao contrário do caso de Lula, que teve uma rapidez atípica em sua “resolução”.

Por fim, as imagens das expressões de Dilma no dia de seu depoimento no Senado são impagáveis. Expressões de quem já passou por poucas e boas e sabe exatamente quem são aquelas pessoas que não têm moral alguma para acusá-la. Ter que ouvir tudo e ainda ser bem-educada é de uma evolução de espírito admirável.

“O Processo” estreia no próximo dia 17 e promete mover as discussões das próximas semanas. É um filme que me deu grande mal-estar ao assistir, mas uma sensação necessária e importante. O filme é o mais novo da diretora Maria Augusta Ramos, que tem outros documentários interessantes, como “Justiça” e “Morro dos Prazeres”.

#Filmeseséries

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Manu Mayrink é fanática por livros, filmes, séries, música e lugares novos.  A internet é seu maior vício (ao lado de banana e chocolate, claro) e o "Alguém Viu Meus Óculos?" é seu xodó. Ela ama falar (muito) e contar pra todo mundo o que anda fazendo (taurina com ascendente em gêmeos, imagine a confusão!). Já morou em cidade pequena e em cidade grande, já conheceu gente muito famosa e outras não tanto assim (mas sempre com boas histórias). Já passou por alguns lugares incríveis, mas quando o dinheiro aperta ela viaja mesmo é na própria cabeça. Às vezes mais do que deveria, aliás.

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