• Taissa Maia

“Comboio de Sal e Açúcar” transporta esperança e sonhos em seus vagões


Pessoas são como universos. Resguardam conflitos dentro de si. Elas são contradições em eterna mutação e se relacionam umas com as outras. Para além das interações interpessoais, estão os campos ainda mais profundos das relações políticas, econômicas e culturais. É desafiador, portanto, realizar um filme histórico, apresentando personagens com subjetividades realistas e camadas sólidas. “Comboio de Sal e Açúcar” é um esforço parcialmente bem-sucedido nesse sentido. Livre de intenções maniqueístas, a guerra civil moçambicana serve honestamente de pano de fundo para um romance humanizado.

No final dos anos 80 um trem parte de Moçambique para o Malawi. Protegidos pelo exército, alguns cidadãos estão a bordo e levam sal com o objetivo de trocá-lo por açúcar no país vizinho. Posteriormente, retornam para revendê-lo mais caro em seu próprio país. As tensões entre o poder oficial do governo e as forças paramilitares dissidentes estão no auge. Poucos quilômetros são transformados em dias, numa perigosa viagem rumo ao imprevisível. Rosa (Melanie de Vales Rafael), uma jovem enfermeira, apaixona-se pelo militar Taiar (Matamba Joaquim) - doce alívio cênico para a pobreza e violência que os acompanham no trajeto.

O comboio conduz universos. Recorte de um contexto maior, a história de seus passageiros representa as muitas faces de Moçambique: a tradição agrária, o misticismo, a superstição, a herança colonial, o pensamento progressista libertário, direita e esquerda, morte e vida. Por direcionar o roteiro a partir dos múltiplos subtextos, o filme acaba assumindo um ritmo mais arrastado. Este é o principal defeito. Perde-se o dinamismo, natural a um enredo marcado por enfrentamentos bélicos. Cenas de ação como essas podem prender o espectador num compasso interessante, não necessariamente comprometido com uma estética comercial. No entanto, “Comboio de sal e açúcar” escolhe se distanciar de elementos violentos e dialogar com as particularidades daquele momento histórico.

Apesar dos caminhos semelhantes traçados pelas duas nações - ambas colônias portuguesas - é verdade que há pouca informação no cinema brasileiro sobre a cultura moçambicana. Mas o filme não é pedagógico ao expor essas matrizes e situa o roteiro num tempo e espaço coerente. Não segue a cartilha dos estereótipos africanos já disseminados, mostrando um país cujo espectro cultural é amplo e quase intempestivo. Onde as heranças tribais misturam-se aos interesses políticos da Guerra Fria. Aqui não estou discordando de mim mesma, pois a coerência de Moçambique em 1988 está justamente nessas contradições. “Comboio de sal e açúcar” contempla parte delas em um só filme, o que já é um feito e tanto.

O comboio conduz vidas. Elas seguem sob um pretexto: viajar de trem para comprar e vender mercadorias. Entretanto, os passageiros não limitam seus universos ao próprio corpo e a sutileza das relações contém conflitos de todas as ordens. A presença de cada personagem conversa com diversas temáticas. Seja a fé, o sistema político, a fome e a guerra. Aquele trem diz muita coisa. As pessoas são diálogos, articulados pelo filme de forma digna. É uma história poderosa, razoavelmente bem adaptada para o audiovisual. Para quem tem a mente aberta, “Comboio de sal e açúcar” é capaz de inspirar sonhos e romper as barreiras de universos distantes.

#Filmeseséries

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Manu Mayrink é fanática por livros, filmes, séries, música e lugares novos.  A internet é seu maior vício (ao lado de banana e chocolate, claro) e o "Alguém Viu Meus Óculos?" é seu xodó. Ela ama falar (muito) e contar pra todo mundo o que anda fazendo (taurina com ascendente em gêmeos, imagine a confusão!). Já morou em cidade pequena e em cidade grande, já conheceu gente muito famosa e outras não tanto assim (mas sempre com boas histórias). Já passou por alguns lugares incríveis, mas quando o dinheiro aperta ela viaja mesmo é na própria cabeça. Às vezes mais do que deveria, aliás.

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