• Taissa Maia

"Nós sempre teremos Paris": caminhos e descobertas na Cidade Luz


Sento na escrivaninha do quarto algum tempo depois da viagem e observo os olhos tristes de Van Gogh estampados no meu exemplar de Cartas a Théo. Assim como ele, procurei-me na França e encontrei a inspiração. Ainda não consigo responder o que é meu no arrebatamento. Apenas sei o que as ruas de Paris me sopraram. Gostaria de retornar ao sofá da Shakespeare and Co e escrever este depoimento, dar dicas in loco e secar no calor daquele verão. No entanto, finjo a poeira dos livros e a confusão de línguas. Estou no Rio de Janeiro. A história da livraria acabou recorrente ao longo do tempo em que estive em Paris e, talvez, seja por isso que todos os caminhos terminavam lá.

Shakespeare and Co: a americana Sylvia Beach fundou a primeira Shakespeare and Company. Na década de 20, a chamada Geração Perdida frequentava a livraria. Este movimento foi composto por intelectuais estrangeiros e residentes em Paris, os quais foram recebidos por Sylvia, inclusive, pioneira ao lançar Ulysses de James Joyce. Nenhum editor se interessou pelo romance. A livraria de Sylvia Beach funcionou até 1941, quando os alemães ocuparam a cidade.

Em 1951, George Whitman abriu a livraria Le Mistral. A loja também se tornou local de encontro para escritores estrangeiros e fomentou a Paris intelectual. Posteriormente, George adotou o nome batizado por Beach, inaugurando a Shakespeare and Co que resiste ainda hoje. Aparentemente, o mercado europeu de livrarias é tomado por grandes empresas. Claro que o clima que remete à Geração Perdida foi construído intencionalmente para atrair visitantes, mas o fato da livraria independente estar sempre lotada é uma vitória. Marketing ou não, eu fui completamente abduzida pela atmosfera da loja e passei horas lendo poesia. Não consigo descrever minha satisfação naqueles sofás, acompanhada por palavras e num tempo só meu. Muitos turistas entravam e saíam, enquanto eu devorava Pablo Neruda. Cabe lembrar que a Shakespeare and Company só vende livros em inglês.

37 rue de la Bûcherie

75005 Paris

www.shakespeareandcompany.com

Após dizer adeus aos fantasmas de Ernest Hemingway e James Baldwin, eu passeei pela praça Jean XXIII. Atrás da Notre Dame, pode-se ver a igreja por outro ângulo e o Rio Sena. Na verdade, desisti da Catedral de Notre Dame quando vi o tamanho da fila e preferi rodeá-la, notando os detalhes com calma. Aliás, fica aqui a grande e valorosa dica: tudo em Paris é um requinte visual e antropológico. Não se contente com a Paris turística. Assumi a postura do Flâneur, mesmo sendo mulher. Fui errante, espionando pessoas do mundo inteiro se apressarem em excursões. A cidade pede um olhar atento e desocupado. Por isso, a melhor escolha foi conhecer a região e finalizar o dia com um vinho em algum restaurante nas margens do rio.

Reconheço o paradoxo. O tempo em Paris não foi exatamente fluido pela ausência de compromissos. Eu estava lá para um curso na Universidade de Sorbonne. Aprendi sobre arte e história francesas de forma complementar à experiência na rua. Foi incrível e recomendo para qualquer pessoa que está na área acadêmica e que pode fazer esse investimento. Acessem o site para mais informações:

www.lettres.sorbonne-universite.fr/universite-ete

As aulas ocupavam parte do tempo. Entretanto, as primeiras horas do dia, o almoço e o final da tarde estavam livres. Pensando nisso, elaborei um roteiro com bastante antecedência. Naturalmente, os planos foram subvertidos. Assim, quando não dava para fazer algo longe, corria até o Jardim de Luxemburgo que era meu plano B. O Jardim de Luxemburgo é a materialização da beleza construída pelo homem. Será que o dinheiro ergue coisas belas? O Jardim é a confirmação. Vi uma das cenas mais emocionantes da vida: ao longe o sol se punha atrás da Torre Eiffel e as flores emolduravam a paisagem.

Paris é mágica. Enquanto escrevo, penso que nada é decepcionante. Eu criticaria a culinária, esperando sete pedras. Mas sei que algumas comidas encantaram. Reservo um momento para os restaurantes e pâtisseries...

La Coupole: o restaurante foi inaugurado em 1927 e é clássico por habitar o universo que envolve a Geração Perdida. Simone de Beauvoir e Josephine Baker frequentavam o La Coupole, no bairro de Montparnasse. Comi sopa de cebola, mexilhões e um Crème brûlée. Todos os pratos são típicos da culinária francesa.

102 boulevard de Montparnasse 75014 Paris

The Butchers of Paname: Simplesmente o melhor de todos! O mais caro também... Pedi o prato mais barato do menu. De qualquer forma, estava divino e era bem simples. Peito de frango com purê de brócolis e avelã. Parei nesse restaurante como última escolha e não imaginava o que seria. Realmente vale o investimento para uma noite especial.

9 rue de l'École de Médecine, 75006 Paris

Au petit Grec: Parece um boteco, mas é o melhor crepe de Paris! Os estudantes da Sorbonne costumam comer nessa creperia. O passeio até lá também vale a pena porque a rua Mouffetard é cheia de bares e restaurantes diferentes.

68 rue Mouffetard

75005 Paris

Quanto aos doces e croissants, em qualquer lugar são deliciosos. Indico a pâtisserie Viennoise, a Maison Pradier, a clássica Ladurée e os crepes de rua. A crítica se daria pela expectativa exacerbada. Achei que todo restaurante seria maravilhoso e me deparei com refeições mais ou menos. É óbvio que o feitiço das ruas parisienses apagou qualquer impressão ruim. Num dos passeios percebi que o hotel era ao lado do museu Cluny - o primeiro em que estive, pequeno e que exibe artefatos medievais. Falando em museus, sou apaixonada por belas artes e o D’Orsay estava no topo da lista. Visitei os quadros impressionistas numa das manhãs. Quase chorei com o azul de Van Gogh – o meu pintor preferido. O movimento impressionista é cor e luz, não uma tentativa fiel de representar a realidade. Foi interessante comparar paisagem e quadro no dia em que fui à casa de Monet e ao museu L’Orangerie. Os painéis em exposição são mais coloridos do que o verdadeiro lago das ninfeias. No entanto, tudo nesse passeio à Giverny é imperdível.

Senti que cometeria um pecado ao evitar o Louvre. Então fui no último dia. O bloco de carnaval Mona Lisa é um pouco sufocante. As pessoas basicamente se amontoam para tirar selfies e não observam os detalhes. Comprei a visita audio-guiada, o que foi muito bom para um museu como o Louvre. É possível se informar profundamente sobre cada obra e otimizar o passeio. A Champs Élysée também sufoca. Lotada de turistas e consumo. Paris emana cultura e intelectualidade em toda parte e só a Champs me fez lembrar que tudo é mercadoria. A própria cidade é mercadoria. Às vezes, penso que caí na armadilha do imaginário parisiense. Mas nada apaga a essência genuinamente inspiradora daquelas ruas. Paris é a singela certeza de estar vivo. Quando substituímos o espetáculo pelo ridículo jogo dos acasos. Vagando pelas ruas, olhava para longe e avistava a ponta da Torre Eiffel. Como nosso Cristo, a dama abençoa as palavras que são sopradas para os escritores. Forma-se um único texto que transpõe o tempo e o espaço: Paris é a festa de cada um na liberdade do ser.

#lugares

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Manu Mayrink é fanática por livros, filmes, séries, música e lugares novos.  A internet é seu maior vício (ao lado de banana e chocolate, claro) e o "Alguém Viu Meus Óculos?" é seu xodó. Ela ama falar (muito) e contar pra todo mundo o que anda fazendo (taurina com ascendente em gêmeos, imagine a confusão!). Já morou em cidade pequena e em cidade grande, já conheceu gente muito famosa e outras não tanto assim (mas sempre com boas histórias). Já passou por alguns lugares incríveis, mas quando o dinheiro aperta ela viaja mesmo é na própria cabeça. Às vezes mais do que deveria, aliás.

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