• Taissa Maia

Culpa e paranoia em cena em "Homem Livre"


Onde está a liberdade, se não dentro da nossa cabeça? “Homem Livre” dialoga com muitos conceitos contemporâneos, inclusive estar preso ao passado em uma sociedade punitivista. Hélio Lotte (Armando Babaioff) cometeu um crime brutal e cumpriu a sentença de forma resignada. Na prisão, encontrou Deus e é nele que também se apoia quando retorna ao convívio. Ele foi um roqueiro famoso, cuja carreira se deteriorou após o escândalo público e, por isso, ao deixar o cárcere, esconde-se em uma igreja evangélica. O clima de paranoia é gradativo ao longo do filme, já que os motivos para desconfiança só crescem: o protagonista pensa estar livre da imprensa e da retaliação, mas começa a suspeitar de todos a sua volta. Gileno (Flávio Bauraqui), o pastor que acolhe Hélio, passeia entre a bondade e a dissimulação. E o roteiro nos coloca, justamente, nesse lugar de constante dúvida. Será que os acontecimentos são imaginados? Será que não existe nada por trás das aparências?

O fato é que Hélio se sente perseguido por suas próprias escolhas e precisa exorcizar os fantasmas antes de viver em liberdade. Talvez recaia sobre a doutrina evangélica essa necessidade que o personagem sente de se perdoar. Afinal, culpa e perdão aparecem constantemente no discurso evangélico. Tratando-se de um filme com tantos aspectos psicológicos, a atuação de Armando Babaioff é contida. O ator construiu um Hélio Lotte submisso ao pastor Gileno e muito calado, mas que se revela potencialmente agressivo a partir de certos gatilhos. Essa modulação é interessante, mas fica menor ao lado de Flávio Bauraqui, que cumpre exatamente a função narrativa de intrigar. Suas reais intenções são camufladas e o que emerge é um orador habilidoso. Olhamos para ele com o mesmo olhar desconfiado daqueles que não partilham de sua fé. O preconceito religioso é um tema presente, entretanto, a verdadeira crítica reside no culto à personalidade. Na paixão por um ídolo que o coloca acima do ser humano, seja ele o pastor ou o cantor. Desafiar esse modus operandi da Igreja midiatizada e das personalidades em declínio, neste momento do Brasil, é um ato de coragem e “Homem Livre” merece reconhecimento por essa honestidade.

#Filmeseséries

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Manu Mayrink é fanática por livros, filmes, séries, música e lugares novos.  A internet é seu maior vício (ao lado de banana e chocolate, claro) e o "Alguém Viu Meus Óculos?" é seu xodó. Ela ama falar (muito) e contar pra todo mundo o que anda fazendo (taurina com ascendente em gêmeos, imagine a confusão!). Já morou em cidade pequena e em cidade grande, já conheceu gente muito famosa e outras não tanto assim (mas sempre com boas histórias). Já passou por alguns lugares incríveis, mas quando o dinheiro aperta ela viaja mesmo é na própria cabeça. Às vezes mais do que deveria, aliás.

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