Coletivo "Evoé" e a resistência feminina e brasileira nos palcos norte-americanos


Como venho dizendo, penso que o atual momento no mundo não é dos melhores, e eu acredito também que seja justamente nesses momentos ruins e conflituosos que a arte passa a se fazer mais presente. Em meio a isso, conheci o grupo Evoé, formado por quatro meninas brasileiras, que atua em Nova York. Em uma entrevista com Bárbara Eliodorio, uma atriz paulista formada pela Escola Wolf Maya e uma das integrantes do coletivo, falamos sobre algumas questões importantes na arte e no mundo. Já morando em Nova York, Bárbara criou, junto com as amigas Laila Garroni, Ma Troggian e Isabella Pinheiro, o grupo Evoé, cujo objetivo é promover a cultura brasileira no exterior através da dramaturgia clássica e contemporânea e também de conteúdos audiovisuais. Ela explica que foi a paixão pelo Brasil e a necessidade de levar a nossa cultura para os Estados Unidos que motivou as meninas a criar o grupo. “Nossa dramaturgia é ímpar, não tem nada no mundo igual, e sentíamos falta desse tipo de teatro que é mais cru, mais incontrito", diz a jovem. A palavra “evoé”, usada pelos gregos para celebrar Dionísio, também é muito usada nos grupos de teatro no Brasil, segundo Bárbara. “Sempre antes de entrar em cena, convocamos os deuses do teatro para ‘abençoar’ nossa performance e falávamos: ‘Evoé!’. A palavra sempre nos inspirou muito e achamos tudo a ver com esse teatro cru e centrado nas nossas raízes brasileiras que queremos fazer.”

Para começar os trabalhos do Evoé, o grupo escolheu a obra "Os Sete Gatinhos", de Nelson Rodrigues, para introduzir o teatro brasileiro para a plateia internacional. Foi a primeira apresentação do projeto de leituras dramatizadas "Brazil reads Brazil". “O texto do Nelson é muito particular ao Brasil e ao brasileiro, e, ao mesmo tempo, lida com temas universais que qualquer pessoa de qualquer lugar do mundo pode se relacionar, o que não limita a compreensão da plateia”, opina a paulista. O projeto já tem segunda edição, que deverá acontecer entre o final de outubro e o início de novembro. Será o "Female Voices of Brazil", que ocorrerá no Segal Theatre e terá como foco a leitura de parte de peças escritas por dramaturgas contemporâneas, como Márcia Zanelatto e Cidinha da Silva.

Vivendo em um Estados Unidos presidido por Donald Trump, Bárbara (que participou da adaptação de "Júlio Caesar", de William Shakespeare, uma releitura que faz críticas a governos tiranos, especialmente o de Trump), acredita que seu governo seja fruto de uma América que tem muito medo do que é diferente. “Os americanos mais conservadores vivem num sistema que os alimenta de ignorância e medo. Existe um receio muito grande de que os imigrantes ‘roubem’ seu espaço e suas oportunidades. E o Trump se aproveita disso para se estabelecer e garantir os direitos de uma direita extremista”, pondera.

Mesmo não morando aqui, Bárbara também entende que o cenário político no Brasil é caótico e acredita que a arte seja uma ferramenta importante de mudança. “A fase que estamos passando, embora horrenda, é necessária, pois essas pessoas sempre estiveram no governo fazendo as suas sujeiras por debaixo do tapete, mas agora o tapete foi levantado. A dramaturgia, assim como qualquer outra forma de arte, é essencial nesse momento. Eu como atriz me sinto muito inspirada a levantar estes questionamentos no palco. É necessário refletir como chegamos aqui, e o que podemos fazer para mudar. E o palco tem essa coisa linda de unir as pessoas para que possamos pensar juntas e, consequentemente, agir.”

A atriz me contou sobre sua experiência de morar em Nova York, onde vive há quase quatro anos. “Não é fácil, mas vale muito à pena. Nova York é uma cidade bem difícil, é o capitalismo selvagem em sua melhor forma, mas acho que tudo que eu passo aqui me torna um ser humano melhor e consequentemente uma atriz melhor.”

Bárbara me contou também mais ou menos como é a experiência de ser uma latina trabalhando como artista nos Estados Unidos. “No Brasil, eu posso fazer qualquer personagem, eu sou ‘neutra’, mas aqui sou vista como latina, ou ‘etnicamente ambígua’, o que é limitador. Mas isso está mudando, a onda agora é inversa. O espaço está se abrindo para os que são considerados minorias. Além disso, há o que se chama ‘blind casting’, ou ‘casting às cegas’, em que não há um pré-julgamento de como o personagem deva parecer; o ator escolhido será aquele que melhor representar o papel e pronto.”

Em um tempo em que a força feminina está cada vez mais em voga, um grupo como o Evoé, formado somente por mulheres, mostra como o feminino tem sim seu espaço e como devemos lutar por ele cada vez mais, como nunca. “Acho muitíssimo importante nós nos darmos as mãos e juntas usarmos as nossas vozes para combater todos os tipos de agressão que o nosso sexo sofre. Cada uma do jeito que puder”, sugere Eliodorio. “Acredito também que a partir do momento em que nos estabelecemos como um grupo de artistas mulheres, que estão produzindo os seus próprios trabalhos e se colocando no mundo, estamos criando uma plataforma para que muitas outras venham e façam o mesmo. Acho que se pudéssemos dizer algo seria: ache a sua voz e grite-a muito, mas muito alto. Nós achamos a nossa voz no teatro, mas ela pode ser como artista, mãe, advogada, faxineira… Comece onde está, com o que você tem e como você pode. E juntas iremos longe”, completou a atriz. E não é que eu concordo? Vamos juntas! Fotos: Aline Müller

#teatro

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Manu Mayrink é fanática por livros, filmes, séries, música e lugares novos.  A internet é seu maior vício (ao lado de banana e chocolate, claro) e o "Alguém Viu Meus Óculos?" é seu xodó. Ela ama falar (muito) e contar pra todo mundo o que anda fazendo (taurina com ascendente em gêmeos, imagine a confusão!). Já morou em cidade pequena e em cidade grande, já conheceu gente muito famosa e outras não tanto assim (mas sempre com boas histórias). Já passou por alguns lugares incríveis, mas quando o dinheiro aperta ela viaja mesmo é na própria cabeça. Às vezes mais do que deveria, aliás.

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