"Tom na Fazenda", homofobia, violência e teatro da melhor qualidade


"Tom na Fazenda" já recebeu indicações aos prêmios Shell (5), Cesgranrio (7), Botequim Cultural (10) e Cenym (17). Sendo assim, não eram poucas as minhas expectativas com relação ao espetáculo. Fui animada para conhecer enredo, atores, cenário... Tudo de que já tinha ouvido falar tão bem. E amei o resultado!

A peça é baseada no original "Tom à la Farme", do autor canadense Michel Marc Bouchard. Armando Babaioff foi arrebatado pela obra e a traduziu, com necessidade de abordar o tema da inabilidade do indivíduo para lidar com o preconceito, a impotência, a violência e o fracasso.

No espetáculo, Babaioff dá vida ao protagonista Tom. Após a morte de seu companheiro, ele vai até a fazenda da família para o velório e descobre que a sogra não sabia de sua existência. Ela nem tinha conhecimento, aliás, de que o filho era gay. Tom acaba se envolvendo em uma rede de mentiras criada pelo irmão do falecido e estabelece com a família uma relação de complicada interdependência. Ambos os lados se envolvem em submissões que parecem impossíveis. Mas ali são completamente reais.

A sessão a qual eu assisti, no último domingo (29), foi particularmente especial. Era o último dia de Kelzy Ecard e Gustavo Vaz no elenco (eles saíram para rodar um longa) e a emoção dominou o espetáculo do início ao fim. Tal fato levou à cada cena uma veracidade ímpar e nos envolveu de maneira brutal. Mas ao mesmo tempo gerou algumas quedas (no sentido literal mesmo) e incertezas em meio a um chão escorregadio.

O cenário é composto basicamente de lama (que vai sendo molhada ao longo do espetáculo, e é transformado em um incrível elemento cênico) e é muito interessante perceber como o elenco lida com situações adversas que tal construção pode trazer. Cada escorregada, cada queda, tudo é importante e agrega valor ao que está sendo contado. E os atores definitivamente não tem medo de se sujar, de se rasgar... de serem verdadeiramente aqueles que representam. A entrega de Babaioff, principalmente, é e arrepiar. Eu quase fechei o olho em alguns momentos. Isso sem contar o fato de que, na sessão do último domingo, o ator estava com algum tipo de inflamação ocular (seu olho estava bastante vermelho e inchado) e isso não atrapalhou em nada a performance. Dedicação total!

Parabéns especial também para a relação entre elenco e iluminação. A precisão é importante para que o espetáculo ganhe em emoção. E é tudo muito certeiro! O que só reforça à minha crença (meio óbvia, talvez) na importância crucial que a luz de uma peça tem na produção de sentido do próprio enredo.

A verdade é: eu sempre saio cansada de espetáculos que duram 2h. Sempre acho exagerado. Mas "Tom na Fazenda" faz com que o tempo passe sem você perceber. Não vou dizer que acho todas as cenas imprescindíveis. Talvez eu cortasse uma coisa ou outra... Mas fazer com que a Manuzinha hiperativa fique concentrada por 2h em uma história é porque é bom mesmo! :D

Fotos: José Limongi e Ricardo Brajterman

TOM NA FAZENDA

Temporada: de 6 de outubro a 17 de dezembro

Local: Teatro Poeirinha – Rua São João Batista 104, Botafogo. Tel.: (21) 2537 8053

Apresentações: quinta e sábado, às 21h, e domingo, às 19h.

Capacidade: 45 lugares. Duração: 110 minutos. Classificação indicativa: 18 anos.

Gênero: Drama.

Ingressos: R$ 30 (meia) e R$ 60 (inteira).

Horário da bilheteria: de terça a sábado, das 15h às 19h. Domingo, das 15h às 19h.

Vendas online: www.tudus.com.br

#teatro

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Manu Mayrink é fanática por livros, filmes, séries, música e lugares novos.  A internet é seu maior vício (ao lado de banana e chocolate, claro) e o "Alguém Viu Meus Óculos?" é seu xodó. Ela ama falar (muito) e contar pra todo mundo o que anda fazendo (taurina com ascendente em gêmeos, imagine a confusão!). Já morou em cidade pequena e em cidade grande, já conheceu gente muito famosa e outras não tanto assim (mas sempre com boas histórias). Já passou por alguns lugares incríveis, mas quando o dinheiro aperta ela viaja mesmo é na própria cabeça. Às vezes mais do que deveria, aliás.

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