"Colheita Amarga" e a problemática da simples dicotomia entre bem e mal


Um gosto amargo invadiu minha boca ao término da sessão. Equivocado seria pensar nessa amargura como inevitável consequência dos questionamentos suscitados pelo filme. O ímpeto questionador é meu e aceito sua autonomia, já que a narrativa não contempla um olhar para fora. Segue o caminho contrário e o espectador é forçado ao lugar comum. Saturado por escolhas fáceis, ele constata: "Colheita Amarga" foi condenada à seca contemporânea, recorrendo aos clichês do cinema pasteurizado.

Cenários bucólicos protegem uma vila camponesa no interior da Ucrânia em 1932. O jovem Yuri (Max Irons) alimenta um amor de infância por Natalka (Samantha Barks), sentimento que compõe a impenetrável ingenuidade de suas vidas. Nos campos ucranianos, onde os amantes cresceram, tudo é pela terra, todo homem é livre e desconhece a maldade. Valores mantidos por gerações e violentamente rompidos quando Josef Stalin impõe a política de coletivização da agricultura. Até então menino, Yuri abandona aspirações infantis e aventura-se numa saga heroica para realizar o sonho de formar uma família. Rumo à capital, testemunha o início do episódio futuramente conhecido no mundo como Holodomor. O espectador acompanha sua conversão em um homem capaz de matar, fugir da prisão, salvar crianças famintas e derrotar quem usurpou sua vila.

Holodomor: a expressão traduz o sofrimento da "morte por fome". Entre 1932 e 1933, milhões de ucranianos somaram-se às vítimas do controverso episódio. Controverso, pois não há um consenso. Os acadêmicos e os governos dividem-se entre os que caracterizam como genocídio, e aqueles que não tipificam dessa forma o crime praticado. Sendo o termo genocídio designado à ação deliberada de extermínio contra um grupo étnico, os adeptos da segunda corrente acreditam que a privação de alimentos resultou de fenômenos naturais e do colapso de um sistema sócio-político. Entretanto, ambas as partes denunciam o ato criminoso.

Contudo, estas e outras informações adquiridas são frutos de um exercício posterior. A “Colheita Amarga” parece mais comprometida em nos encantar com o romance pouco realista de Yuri e Natalka. São os heróis da saga – enquanto os soviéticos e Stalin são antagonistas, os impiedosos vilões russos. Fraquejando na relativização dos fatos, o filme se aproxima mais de um conto de fadas do que de uma narrativa histórica. Por ser apenas o plano de fundo, a grande fome ucraniana é privada de sua complexidade. Mesmo depois do lettering informativo, deixei a sessão com dúvidas. Foi preciso um movimento de pesquisa para compreender o Holodomor em seu contexto plural, desmistificando a proposta romântica do filme.

Note que faço uma crítica direcionada. Alguns elementos são passíveis de elogio, especialmente as atuações e a bela fotografia. Mas o incômodo se dá pela necessidade de polarização, pelas cenas de ação americanizadas e pelo reencontro novelesco do casal – exemplos de saídas toscas que reduzem a História a um papel panfletário. Claro que não discordo da importância de trazer à luz esse tema. Só há uma discordância quanto ao método, pois o filme subestima o intelecto do espectador em nome de um produto comercial e preguiçoso.

A “Colheita Amarga” é entretenimento e busca encenar as mais clássicas jornadas do herói. Perde-se nessa tentativa. Além de enfraquecer a dor das vítimas, os eventos extraordinários presentes no filme esvaziam o verdadeiro diálogo sobre sistemas de poder e seus limites. Mais eficaz seria apresentar a dureza da morte, as múltiplas subjetividades e a heterogeneidade do cenário político e social. Não somente alusões ao bem e o mal. A amargura do belo é clamada pela arte asséptica. Por isso, sou favorável de um cinema que não entrega enredos mastigados e mocinhos redentores. Um cinema inteligente quando retrata episódios reais. Posto que fantasiar a humanidade e seus horrores é pagar caro pela beleza do espetáculo.

Direção: George Mendeluk. Elenco: Max Irons, Samantha Barks, Terence Stamp. Gênero: Romance. País: Canadá. Ano: 2017. Duração: 103 min. Classificação: 14 anos.

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Manu Mayrink é fanática por livros, filmes, séries, música e lugares novos.  A internet é seu maior vício (ao lado de banana e chocolate, claro) e o "Alguém Viu Meus Óculos?" é seu xodó. Ela ama falar (muito) e contar pra todo mundo o que anda fazendo (taurina com ascendente em gêmeos, imagine a confusão!). Já morou em cidade pequena e em cidade grande, já conheceu gente muito famosa e outras não tanto assim (mas sempre com boas histórias). Já passou por alguns lugares incríveis, mas quando o dinheiro aperta ela viaja mesmo é na própria cabeça. Às vezes mais do que deveria, aliás.

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