Se você nunca leu Clarice Lispector, não comece por "Correio Feminino"


Antes de mais nada, um aviso: este é o primeiro livro que leio da Clarice e acho que fiz besteira. Logo de cara, Aparecida Maria Nunes, doutora em Literatura Brasileira pela USP, jornalista e professora universitária, diz que esta não é a Clarice que todos conhecem; é algo, vamos dizer assim, de bem menos qualidade.

Clarice começou a atuar na imprensa em 1940 - três anos antes de lançar seu primeiro romance, 'Perto do coração selvagem' - colaborando de modo intermitente com jornais e revistas até dois meses antes de sua morte, ocorrida em 1977. Pela primeira vez, estes textos foram reunidos, em um trabalho realizado pela Editora Rocco. Eles abordam os mais diversos temas, desde a educação dos filhos aos tratamentos de beleza; dos remédios contra os ratos à busca da felicidade; da escolha do perfume aos dilemas morais. Assim, o que encontramos aqui é uma outra faceta, pouco conhecida e estudada, de Clarice.

Na imprensa, em suas colunas femininas, Clarice usava pseudônimos. Ela tinha receio de como tais textos poderiam afetar a sua imagem como escritora. Conhecem Helen Palmer, que já até virou série no Fantástico? Era Clarice.

"Correio Feminino" chega a dar desespero. Os textos do livro ensinam o tempo inteiro como ser uma mulher perfeita, como agradar o marido e ter um bom casamento, afinal de contas “é isso que uma mulher procura e necessita”. É de cair o cu da bunda, principalmente nos dias de hoje. Sorte ter lido o prefácio da professora Aparecida, para entender de cara que esta não é a Clarice conhecida por todos. Já estava assustada. Ou seja: comecei a ler justo a parte alternativa da autora!

Mas Clarice tentava mandar seus recados nas entrelinhas, falando volta e meia de coisas como fraqueza e vaidade de masculinidade, como no trecho: “Os homens, geralmente muito discretos, detestam as mulheres que se destacam demais, onde quer que apareçam. Não apenas pela sua própria maneira de ser, mas também por uma questão de vaidade masculina, já que não lhes é agradável ficar ofuscados ou relegados a um plano inferior” (p. 17). Ainda nas entrelinhas, Clarice fala da necessidade da mulher ser esclarecida e de buscar acima de tudo ser feliz; critica a ditadura da moda e encoraja a leitura.

Porém, de uma maneira geral, o que acompanhamos são dicas de beleza e comportamento; quase uma blogueira dos anos 1960. Fica muito claro também que a leitora destes textos de Clarice é a dona de casa de classe média alta ou rica. Ela fala de como lidar com a empregada, por exemplo. As dicas e conselhos dados por Clarice são fora da realidade das mulheres pobres. A gente tem mesmo que se prender nas informações anteriores de contextualização do livro pra não querer morrer a cada página rsrsrs

O que mais gostei foram as crônicas do último capítulo. Imagino que elas estejam mais próximas da Clarice conhecida por todos. Lá ela fala, por exemplo, dos privilégios masculinos em “A Irmã de Shakespeare” e das agruras da vida de escritora em “Me dá licença, minha senhora” (criticando inclusive as próprias colunas femininas, que consideram “feminino” o que geralmente os homens e mesmo algumas mulheres consideram: como se elas fizessem parte de uma comunidade fechada, à parte, e de certo modo segregada).

E vocês? O que conhecem de Clarice Lispector? O que recomendam a esta pobre alma que começou pelo caminho errado?

#livros

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Manu Mayrink é fanática por livros, filmes, séries, música e lugares novos.  A internet é seu maior vício (ao lado de banana e chocolate, claro) e o "Alguém Viu Meus Óculos?" é seu xodó. Ela ama falar (muito) e contar pra todo mundo o que anda fazendo (taurina com ascendente em gêmeos, imagine a confusão!). Já morou em cidade pequena e em cidade grande, já conheceu gente muito famosa e outras não tanto assim (mas sempre com boas histórias). Já passou por alguns lugares incríveis, mas quando o dinheiro aperta ela viaja mesmo é na própria cabeça. Às vezes mais do que deveria, aliás.

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