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"Fogo Contra Fogo" traz a luta de Solomon Mahlangu pelo fim do apartheid

20 Nov 2019

  

Algumas coisas sobre os movimentos negros no Brasil que sempre são importantes de lembrar: foram suas lutas as verdadeiras responsáveis pela abolição da escravidão, não a assinatura da branca redentora Princesa Isabel; foram suas lutas as verdadeiras responsáveis pela criação do sistema de cotas, não a assinatura do presidente salvador... Aqui citando só alguns exemplos. Tais situações se repetiram (e repetem) ao redor do mundo, em diversas lutas que só tiveram êxito pela persistência do movimento, ao custo de, literalmente, muitas vidas. 

 

A batalha pelo fim do apartheid na África do Sul talvez seja um dos maiores exemplos. A política de segregação racial implantada em 1948 afirmava que a minoria branca, os únicos com direito a voto, detinha todo poder político e econômico no país, enquanto à imensa maioria negra restava a obrigação de obedecer rigorosamente à legislação separatista. "Fogo Contra Fogo", que chega aos cinemas (infelizmente poucas salas) nesta quinta-feira (21), conta a história real de Solomon Kalushi Mahlangu (Thabo Rametsi), um jovem vendedor ambulante que é atraído pelo movimento de libertação sul-africano e decide embarcar na luta armada contra o regime de Apartheid, após os eventos de 16 de junho. Nesta data aconteceu o Levante de Soweto, uma manifestação pacífica, com estudantes cantando e marchando pelo subúrbio negro em Johanesburgo em direção a um estádio aberto, onde fariam um comício, quando foram alvo de uma bomba de gás lacrimogêneo por um policial, para, em seguida, serem atingidos por disparos das tropas de choque munidas de armas automáticas. O número de pessoas mortas oficialmente é de 95, mas normalmente é dito que foram 176 e há estatísticas de ao menos 700 mortos.

 

 

Solomon passa a receber treinamento militar no chamado ANC (Congresso Nacional Africano), o braço revolucionário de resistência contra o governo opressor (tendo Nelson Mandela como sua figura mais importante e emblemática). A história de Solomon se tornou mundialmente famosa porque ele foi condenado a uma série de crimes que não cometeu, por uma polícia e uma corte completamente entranhadas no racismo estrutural e legitimado. Suas últimas palavras viraram símbolo da resistência: “Diga a meu povo que eu os amo e que eles devem continuar a luta. Meu sangue nutrirá a árvore que dará os frutos da liberdade. A luta continua.”

 

Luta pelo fim da escravidão pela pobreza, pelo fim do sofrimento das mães pretas, pelo fim do sangue inocente sendo jorrado... Luta pela liberdade. Em seus períodos de treinamento, Solomon leu "Pedagogia do Oprimido", "A Arte da Guerra" e tantas obras que o prepararam também intelectualmente para a batalha física e de narrativas. Muita gente precisou morrer para que liberdades fossem conquistadas. E nunca, em qualquer luta popular que alcance resultado, será justo atribuir a vitória à benevolência do poderoso que assinou o papel da lei. 

 

"Fogo contra Fogo" é um filme cruel. E o é exatamente pela sua fidelidade à realidade. O longa nos lembra da importância da luta diária e da preservação da memória de todos os que viveram antes de nós para que pudéssemos ser como somos e chegar onde chegamos.

 

  

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Manu Mayrink é fanática por livros, filmes, séries, música e lugares novos.  A internet é seu maior vício (ao lado de banana e chocolate, claro) e o "Alguém Viu Meus Óculos?" é seu xodó. Ela ama falar (muito) e contar pra todo mundo o que anda fazendo (taurina com ascendente em gêmeos, imagine a confusão!). Já morou em cidade pequena e em cidade grande, já conheceu gente muito famosa e outras não tanto assim (mas sempre com boas histórias). Já passou por alguns lugares incríveis, mas quando o dinheiro aperta ela viaja mesmo é na própria cabeça. Às vezes mais do que deveria, aliás.

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