Umberto Eco faz revelações de seus métodos criativos em “Confissões de um Jovem Romancista”


Para os fãs de Umberto Eco, “Confissões de um Jovem Romancista” é uma obra quase indispensável. Se você já leu “O Nome da Rosa” ou “O Pêndulo de Foucault”, vai se apaixonar com as revelações feitas pelo autor em “Confissões de um Jovem Romancista”. Nesta obra, Eco conta como criou muitos de seus textos, detalhando os métodos criativos usados em sua escrita.

A despeito dos ensaios que publicou anteriormente (que foram muitos), “Confissões de um Jovem Romancista” se dedica a comentar somente sobre romances. Autodeclarado “acadêmico por profissão e romancista apenas amador”, logo no primeiro capítulo conta como começou a escrever e dá detalhes de processos de escrita de seus livros mais famosos. Com algumas referências muito singulares, que algumas pessoas que tenham lido estas obras talvez possam não ter notado, Eco incentiva que estes livros sejam lidos diversas vezes. Estas visões que ele oferece abre uma chavinha em nossa mente, que nos faz repensar muita coisa que lemos e prestar mais atenção no que ainda será lido. Há certa mudança de paradigma da nossa percepção dos livros literários.

No segundo capítulo, “O autor, o texto e os intérpretes”, ele comenta sobre as diversas interpretações que um mesmo texto pode ter. Eco diz que, nos textos científicos, ele procura refutar ou concordar com as interpretações feitas, ao passo que nos romances, deixa livre as interpretações. É interessante essa visão da liberdade do leitor, afinal, cada um só pode enxergar o mundo através de seu ponto de vista. Este acordo é uma espécie de jogo entre o leitor e o autor.

Ainda no mesmo capítulo, de forma bem acadêmica, mas ao mesmo tempo bem-humorada, Eco coloca as diferenças entre o Leitor Modelo (aquele que o autor imagina ao escrever uma obra) e o Leitor Empírico (aquele que de fato a lê). Estes dois objetos podem ser conflitantes em alguns momentos e ele demostra isso por meio de exemplos de seus próprios livros.

Já no terceiro capítulo, quando aborda os personagens fictícios, diz que os leitores muitas vezes são ingênuos ao confundir realidade com ficção e, de fato, em muitas histórias, essa linha fica tão tênue que se torna passível de confusão. Muitos romancistas criam personagens fictícios que ficam mais importantes que os históricos porque estes são fantasmas, enquanto aqueles são de “carne e osso”, como Sherlock Holmes. Ele comenta esta nossa capacidade de muitas vezes nos emocionarmos mais com personagens fictícios do que com a vida real, em uma espécie de pacto que nos faz acreditar no que lemos, ainda que ficção seja, por definição, mentira. É muito interessante a discussão que coloca a respeito dos sentimentos dos leitores em relação aos personagens, em como nos afeiçoamos tanto com a ficção.

No último capítulo do livro, fala sobre os tipos de listas, funcionais e ficcionais, práticas e poéticas e para que serve cada uma. Coloca alguns argumentos, todos com exemplos de obras (suas ou não). Esta é a parte mais chata de todo o livro, na qual eu demorei quase o mesmo tempo para ler do que todo o resto da obra. Eco se demora em longas listas e, mesmo que eu seja bastante paciente, foi cansativo.

“Confissões de um Jovem Romancista” não é um livro acadêmico, mas também não é uma leitura simples de fim de semana. Apesar de ter uma leitura fácil e fluida, é densa e exige bastante atenção do leitor, para que possa compreender cada detalhe do que é colocado e assim extrair o melhor da obra. O livro foi publicado a primeira vez no Brasil em 2011 e este ano ganhou uma nova edição pela Editora Record.

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Manu Mayrink é fanática por livros, filmes, séries, música e lugares novos.  A internet é seu maior vício (ao lado de banana e chocolate, claro) e o "Alguém Viu Meus Óculos?" é seu xodó. Ela ama falar (muito) e contar pra todo mundo o que anda fazendo (taurina com ascendente em gêmeos, imagine a confusão!). Já morou em cidade pequena e em cidade grande, já conheceu gente muito famosa e outras não tanto assim (mas sempre com boas histórias). Já passou por alguns lugares incríveis, mas quando o dinheiro aperta ela viaja mesmo é na própria cabeça. Às vezes mais do que deveria, aliás.

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