Projeto 198 Livros - #Uruguai - Noite Nu Norte


Antes de me ater à obra da semana, justifico minhas faltas: este texto deveria ser publicado na quinzena passada, mas me deparei com um primeiro problema ao fazer este projeto homérico. É complicado escolher apenas um livro de um país e que, na primeira tentativa, seja aquela obra que me passará um retrato cultural da região. Como qualquer pessoa que quer ler alguma coisa do Uruguai, comecei por Eduardo Galeano e o livro que escolhi já o tinha nas minhas listas de leitura fazia muito tempo: "As veias abertas da América Latina". Li. Porém o livro, como já bem diz o título, fala de toda a porção latina da América e não só da perspectiva uruguaia. A obra é excelente e me fez refletir e aprender muitíssimo, porém não se encaixa nas minhas expectativas com o projeto.

Então, tive que buscar mais referências de obras e escritores para garimpar. Lembrei de um escritor uruguaio que tive contato em um congresso de literatura, outro dos mil que pensei “quero ler em algum momento” e esse momento nunca chegava, até que chegou. Fabián Severo é um professor de literatura e escritor, jovem, que nasceu em Artigas, no Uruguai. Tem poucos livros publicados: dois livros de poemas e uma novela. Escolhi ler o seu primeiro livro de poemas “Noite nu norte”.

O livro de Severo talvez não represente com totalidade a população uruguaia, já que sua temática são memórias nortenhas e em algumas entrevistas em Montevideo, o livro também se mostrava como novidade. Ainda que pequeno, o Uruguai demonstra contrastes e um riqueza cultural. E é em uma de suas culturas que eu quero me ater: a fronteira.

"Noite nu norte" é escrito em portunhol. Nós, brasileiros, temos o conceito de que o portunhol é aquela língua que podemos falar sem nenhum problema nos outros países latino-americanos e que nos vão entender sem nenhum problema, mas Severo mostra em seus poemas que não. Portunhol não é uma língua mal falada e baseada na cara de pau dos brasileiros ou hispânicos que não se dedicam a aprender a língua do outro, portunhol é a cultura das fronteiras. O que separa Artigas da fronteira com o Rio Grande do Sul é um rio e uma rua. Assim, na vida cotidiana, no pensamento, se aprende o portunhol como língua materna.

No poema a seguir, o narrador se confunde com a voz biográfica do autor. O poema fala das dificuldades de uma criança em viver no meio de uma comunidade portunhol e estar em contato com a língua espanhola formal e normativa na escola. O choque, dificuldade e a falta de comunicação entre o institucional e o cotidiano.

Trinticuatro

Mi madre falava mui bien, yo intendía.

Fabi andá faser los deber, yo fasía.

Fabi traseme meio litro de leite, yo trasía.

Desí pra doña Cora que amañá le pago, yo disía.

Deya iso gurí i yo deiyava.

Mas mi maestra no intendía.

Mandava cartas en mi caderno

todo con rojo (igualsito su cara) i issee imbaiyo.

Mas mi madre no intendía.

Le iso pra mim ijo i yo iss.

Mas mi madre no intendía.

Qué issee meu fío, te isse que te portaras bien

i yo me portava.

A istoria se repitió por muintos mes.

Mi maestra iscrevía mas mi madre no intendía.

Mi maestra iscrevía mas mi madre no intendía.

Intonses serto día mi madre intendió i isse:

Meu fío, tu terás que deiyá la iscuela

i yo deiyé.


Viver em portunhol é resistir de alguma maneira, já que as fronteiras existem como linhas apenas nos mapas. E de cada lado existe um sistema linguístico sólido que não condiz com aquilo que nasce do meio. Ler Fabián Severo, um dos poucos autores que publicam hoje em portunhol – inclusive por uma questão mercadológica, não existe muito consumo dessa língua de contato -, é credibilizar a voz, a cultura e vida de pessoas que existem em não-lugares.

Próximo destino:

PARAGUAI

#livros #lugares

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Manu Mayrink é fanática por livros, filmes, séries, música e lugares novos.  A internet é seu maior vício (ao lado de banana e chocolate, claro) e o "Alguém Viu Meus Óculos?" é seu xodó. Ela ama falar (muito) e contar pra todo mundo o que anda fazendo (taurina com ascendente em gêmeos, imagine a confusão!). Já morou em cidade pequena e em cidade grande, já conheceu gente muito famosa e outras não tanto assim (mas sempre com boas histórias). Já passou por alguns lugares incríveis, mas quando o dinheiro aperta ela viaja mesmo é na própria cabeça. Às vezes mais do que deveria, aliás.

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